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Thomas Kuhn (1922–1996) foi um físico, historiador e filósofo da ciência americano cujo livro publicado em 1962, The Structure of Scientific Revolutions, teve uma influência profunda nos círculos académicos. Para Kuhn (1962), o desenvolvimento da ciência não é linear. Em períodos que o autor designa de ciência normal, um ponto de vista científico específico, uma teoria ou paradigma, é aceite como base para a investigação. O processo de crescimento da ciência normal é então acompanhado pela acumulação de anomalias. As mesmas, para serem explicadas, exigem, cada vez mais, pressupostos ad hoc, exteriores à teoria ou paradigma adotado. O facto conduz, mais tarde ou mais cedo, à existência de uma revolução científica e à substituição do velho paradigma por um novo.

Dito o acima, não existem factos alternativos. Existem, sim, teorias ou paradigmas alternativos, explicativos dos factos. As teorias ou paradigmas existem na nossa mente e não têm qualquer outra realidade, seja o que for que signifiquem. O confronto com os factos é suposto testar a razoabilidade das teorias, a existência de anomalias e/ou a necessidade da sua substituição.

Vem isto a propósito da guerra Rússia-Ucrânia e da eleição intercalar para o Congresso e Senado americanos, em novembro deste ano. Trump, o amigo americano de Putin, ou um seu sucedâneo, pode em novembro retomar o controlo do Congresso e do Senado. E, se assim for, daqui a dois anos, ou menos (com a ajuda de algum tipo de golpe de Estado), recuperar a presidência dos Estados Unidos da América (EUA). Ou seja, e a nosso ver, Trump (ou um seu sucedâneo) é, em larga medida, a esperança de Putin na guerra Rússia-Ucrânia. Com esta hipótese em mente, descrevemos em seguida duas teorias ou paradigmas alternativos sobre a referida guerra e o admirável mundo novo que nos espera a partir de novembro:

  1. Temos uma potência ou império em regressão (EUA) e uma potência ou império do meio em expansão (China). Neste quadro, no conflito Rússia-Ucrânia, a União Europeia (UE) e a Rússia constituem fronteiras distantes destes dois impérios. São potências satélites. Trump (ou um seu sucedâneo) assume em relação à guerra uma postura não intervencionista do tipo paroquial, na linha da direita americana que precedeu Kissinger e os Neo-Cons dos Bush. Será alguém mais preocupado, digamos, com o seu condomínio privado de luxo em “Marvila” (EUA) do que com a sua segunda residência na “Lapa” (UE). E a guerra prolonga-se às expensas da UE, isto é, já sem o suporte ativo dos EUA.
  2. Trump (ou um seu sucedâneo) oferece a UE a Putin em troca, por exemplo, das Américas. Quem sabe, faz ao México o que o Putin fez à Ucrânia, por causa dos migrantes. Acabar com os migrantes, à Putin, é capaz de ser uma solução mais genial, para o novo inquilino da Casa Branca, do que a do muro a ser pago pelos mexicanos, ensaiada anteriormente. E que bom seria para Bolsonaro e o seu golpe militar no Brasil. No meio de isto tudo, o império do meio (China) sorri e a guerra termina, com a vitória da Rússia.

Qual das teorias ou paradigmas acima vai apresentar mais anomalias? Não sabemos. De uma maneira ou de outra, sabemos que é bom para a UE que a guerra Rússia-Ucrânia acabe o quanto antes, até novembro. Macron é quem mais tem feito por isso, pela UE e pela democracia. Os alemães estão energeticamente dependentes da Rússia e, por isso, mais condicionados. Mas, ou temos uma UE com autonomia estratégica (que, militarmente, pode começar como um 2º pilar da Nato), antes de Trump (ou um seu sucedâneo) voltar a ser o inquilino da Casa Branca, ou estamos metidos num trinta e um mundial, quando Trump (ou um seu sucedâneo) voltar a ser o referido inquilino.

Para uma UE que pretenda ser baluarte da democracia e dos direitos humanos na cena mundial, seria importante conseguir, até novembro, parar a guerra com um tratado de paz que preserve a integridade dos ucranianos e do território do seu país e que mantenha de pé o julgamento dos crimes de guerra e os direitos humanos. Caso contrário, ou a Ucrânia e o Ocidente ganham a guerra antes da chegada de Trump (ou do seu sucedâneo), até novembro, e a UE vai confrontar-se com a desintegração da federação russa, ou depois da chegada de Trump (ou do seu sucedâneo), a guerra estará perdida. É que a união do Ocidente será quebrada por Trump (ou pelo seu sucedâneo), como foi no passado, e a UE ver-se-á numa posição de uma fragilidade imensa e, quiçá, entregue pelo amigo americano de Putin ao império russo!...

 

Leonardo Costa, agrónomo e economista, e Manuel Sá, filósofo

 

Artigo publicado no Público online, no dia 19 de maio de 2022

 

 

Subject

Russia-Ukraine war

Period19 May 2022

Media contributions

1

Media contributions

  • TitleO amigo americano
    Media name/outletPúblico
    Country/TerritoryPortugal
    Date19/05/22
    DescriptionThomas Kuhn (1922–1996) foi um físico, historiador e filósofo da ciência americano cujo livro publicado em 1962, The Structure of Scientific Revolutions, teve uma influência profunda nos círculos académicos. Para Kuhn (1962), o desenvolvimento da ciência não é linear. Em períodos que o autor designa de ciência normal, um ponto de vista científico específico, uma teoria ou paradigma, é aceite como base para a investigação. O processo de crescimento da ciência normal é então acompanhado pela acumulação de anomalias. As mesmas, para serem explicadas, exigem, cada vez mais, pressupostos ad hoc, exteriores à teoria ou paradigma adotado. O facto conduz, mais tarde ou mais cedo, à existência de uma revolução científica e à substituição do velho paradigma por um novo.
    Dito o acima, não existem factos alternativos. Existem, sim, teorias ou paradigmas alternativos, explicativos dos factos. As teorias ou paradigmas existem na nossa mente e não têm qualquer outra realidade, seja o que for que signifiquem. O confronto com os factos é suposto testar a razoabilidade das teorias, a existência de anomalias e/ou a necessidade da sua substituição.
    Vem isto a propósito da guerra Rússia-Ucrânia e da eleição intercalar para o Congresso e Senado americanos, em novembro deste ano. Trump, o amigo americano de Putin, ou um seu sucedâneo, pode em novembro retomar o controlo do Congresso e do Senado. E, se assim for, daqui a dois anos, ou menos (com a ajuda de algum tipo de golpe de Estado), recuperar a presidência dos Estados Unidos da América (EUA). Ou seja, e a nosso ver, Trump (ou um seu sucedâneo) é, em larga medida, a esperança de Putin na guerra Rússia-Ucrânia. Com esta hipótese em mente, descrevemos em seguida duas teorias ou paradigmas alternativos sobre a referida guerra e o admirável mundo novo que nos espera a partir de novembro:
    a)Temos uma potência ou império em regressão (EUA) e uma potência ou império do meio em expansão (China). Neste quadro, no conflito Rússia-Ucrânia, a União Europeia (UE) e a Rússia constituem fronteiras distantes destes dois impérios. São potências satélites. Trump (ou um seu sucedâneo) assume em relação à guerra uma postura não intervencionista do tipo paroquial, na linha da direita americana que precedeu Kissinger e os Neo-Cons dos Bush. Será alguém mais preocupado, digamos, com o seu condomínio privado de luxo em “Marvila” (EUA) do que com a sua segunda residência na “Lapa” (UE). E a guerra prolonga-se às expensas da UE, isto é, já sem o suporte ativo dos EUA.
    b)Trump (ou um seu sucedâneo) oferece a UE a Putin em troca, por exemplo, das Américas. Quem sabe, faz ao México o que o Putin fez à Ucrânia, por causa dos migrantes. Acabar com os migrantes, à Putin, é capaz de ser uma solução mais genial, para o novo inquilino da Casa Branca, do que a do muro a ser pago pelos mexicanos, ensaiada anteriormente. E que bom seria para Bolsonaro e o seu golpe militar no Brasil. No meio de isto tudo, o império do meio (China) sorri e a guerra termina, com a vitória da Rússia.
    Qual das teorias ou paradigmas acima vai apresentar mais anomalias? Não sabemos. De uma maneira ou de outra, sabemos que é bom para a UE que a guerra Rússia-Ucrânia acabe o quanto antes, até novembro. Macron é quem mais tem feito por isso, pela UE e pela democracia. Os alemães estão energeticamente dependentes da Rússia e, por isso, mais condicionados. Mas, ou temos uma UE com autonomia estratégica (que, militarmente, pode começar como um 2º pilar da Nato), antes de Trump (ou um seu sucedâneo) voltar a ser o inquilino da Casa Branca, ou estamos metidos num trinta e um mundial, quando Trump (ou um seu sucedâneo) voltar a ser o referido inquilino.
    Para uma UE que pretenda ser baluarte da democracia e dos direitos humanos na cena mundial, seria importante conseguir, até novembro, parar a guerra com um tratado de paz que preserve a integridade dos ucranianos e do território do seu país e que mantenha de pé o julgamento dos crimes de guerra e os direitos humanos. Caso contrário, ou a Ucrânia e o Ocidente ganham a guerra antes da chegada de Trump (ou do seu sucedâneo), até novembro, e a UE vai confrontar-se com a desintegração da federação russa, ou depois da chegada de Trump (ou do seu sucedâneo), a guerra estará perdida. É que a união do Ocidente será quebrada por Trump (ou pelo seu sucedâneo), como foi no passado, e a UE ver-se-á numa posição de uma fragilidade imensa e, quiçá, entregue pelo amigo americano de Putin ao império russo!...

    Leonardo Costa, agrónomo e economista, e Manuel Sá, filósofo

    Artigo publicado no Público online, no dia 19 de maio de 2022

    https://www.publico.pt/2022/05/19/opiniao/opiniao/amigo-americano-2006738
    URLhttps://www.publico.pt/2022/05/19/opiniao/opiniao/amigo-americano-2006738
    Persons Leonardo Costa, Manuel Sá