“The people of the eye” – George Veditz e a Preservação das Línguas Gestuais

Translated title of the contribution: The people of the eye – George Veditz and the Preservation of Sign Languages

Research output: Contribution to conferencePaperpeer-review

Abstract

Em 1913, George Veditz, um conceituado líder Surdo norte-americano, filmou um discurso em American Sign Language (ASL), que configura no espólio da National Association of the Deaf (NAD). O discurso intitulado A preservação da Língua Gestual (Preservation of the Sign Language, no original) é a origem da expressão “people of the eye” - o povo do olhar – referindo-se às idiossincrasias culturais da comunidade Surda. À época, a terminologia Cultura Surda era inexistente, por desconhecimento e porque muitos acreditavam que as línguas gestuais eram uma invenção dos educadores (ouvintes) de surdos do século XVIII (Bayton, 1996).
Em 1880, o mundo presenciou o Holocausto Surdo do Segundo Congresso Internacional sobre a Educação de Surdos, conhecido como Congresso de Milão. O epíteto holocausto é usado por Surdos de todo o mundo, devido às consequências devastadoras nas comunidades Surdas ocidentais, nomeadamente a proibição das línguas gestuais nas escolas que implicou castigos físicos severos, resultando em danos emocionais e psicológicos graves em várias gerações de pessoas Surdas.
Na mesma época, a corrente eugenista, almejando a eliminação da surdez, tinha grande expressividade e era liderada por Alexander Graham Bell, que publicou em 1883 a obra Memoir upon the formation of a deaf variety of the human race, onde defendia a eliminação dos factores que promoviam os casamentos entre surdos, sobretudo: a língua gestual, os professores surdos e as escolas residenciais. Foi nesta conjuntura que Veditz sentiu que a língua gestual estava em perigo e que algo devia fazer para a salvaguardar. E tinha razão, pois em 1920, 80% das escolas de surdos nos Estados Unidos da América tinham já adoptado o método oralista, exclusivamente orientado para a produção oral e leitura da fala, banindo as línguas gestuais.
Antes de os próprios Surdos terem noção de que tinham uma Cultura Surda, Veditz teve a iniciativa de fazer um poderoso discurso, comparado por Padden e Humphries ao “I Have a Dream” de Martin Luther King. Este discurso reanima o estilo clássico referido por Foucault, tratando-se de um discurso forte, com intenção de verdade, de luta, e politizado. Veditz vem agitar o status quo e a hegemonia colonialista ouvinte, contestando o intuito da maioria de moldar os surdos à sua semelhança, contaminando e colonizando uma cultura minoritária. Podemos ainda dizer que Veditz estabelece um Discurso Surdo, como acto de liderança e como um apelo à comunidade Surda para que se erga e reaja (Foucault, 1971; Ladd, 2003). Este gesto de activismo é actual, pois hoje as preocupações são semelhantes (Padden e Humphries, 2005). Em Portugal, a classe médica desvaloriza a Língua Gestual Portuguesa (LGP) no processo de desenvolvimento infantil. Na educação dispomos de uma abordagem de ensino que pouco tem de bilingue, na praxis a LGP encontra-se em segundo plano, apesar dos enquadramentos legais existentes. Tendo em conta a investigação que contraria estes comportamentos denota-se na sociedade civil, um resistente desrespeito pelas idiossincrasias da comunidade surda, decorrente ainda do desconhecimento do que é a Cultura Surda. Ao abordar um cidadão comum com estas noções é usual sermos brindados com um olhar confuso e surpreso. A ausência de um estatuto linguístico igualitário da LGP no sistema educacional português eleva a preocupação de vários docentes surdos quanto à degradação da sua língua nativa, ao depararem-se hoje com as graves lacunas de léxico e sintaxe na LGP em jovens Surdos. Além disso, no domínio médico atual quanto à surdez, as cirurgias invasivas e os avanços na genética fazem-nos questionar se o movimento eugenista não perdurará ainda hoje, embora revestido de roupagem mais sofisticada. Travamos uma batalha com duas frentes: contaminar a riqueza da LGP promovendo um sistema educativo que não a protege e valoriza significa minar a cultura que lhe deu berço, bem como sabotar a construção de identidades Surdas saudáveis; erradicar medicamente a surdez significa eliminar a língua gestual e consequentemente, a extinção da Cultura Surda.
Palavras-Chave: Línguas Gestuais; Cultura Surda; Preservação Cultural; Eugenia; Extinção.
Translated title of the contributionThe people of the eye – George Veditz and the Preservation of Sign Languages
Original languagePortuguese
Publication statusPublished - 11 Nov 2017
EventConference 10 years of Portuguese Sign Language: Health Sciences Institut - Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, Portugal
Duration: 10 Nov 201711 Nov 2017

Conference

ConferenceConference 10 years of Portuguese Sign Language
Country/TerritoryPortugal
CityLisboa
Period10/11/1711/11/17

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