A enfermagem é uma parte integrante dos cuidados de saúde, constituindo-se como fenómeno fundamental para os enfermeiros, a resposta aos problemas, reais ou potenciais dos doentes e família, através da resposta às suas necessidades. Os Cuidados Paliativos assumem-se como uma resposta na prevenção e alívio do sofrimento através da identificação precoce e avaliação rigorosa da dor e problemas físicos, psicológicos, sociais e espirituais. São cuidados ativos e totais que têm como objetivo aumentar a qualidade de vida do doente e família. A prestação de cuidados de enfermagem através da integração da filosofia e essência dos cuidados paliativos permite o diagnóstico de necessidades, físicas, psicoemocionais, avaliação da intensidade dos sintomas e do sofrimento, numa abordagem multimodal e multidimensional, promovendo a obtenção da máxima satisfação do doente e família. A possibilidade de elaborar um plano de cuidados numa perspetiva compreensiva, através de uma avaliação holística da saúde e da satisfação das necessidades, recursos, objetivos e desejos, do doente com vista a preservar a sua autonomia e diminuir o seu sofrimento permitem otimizar os cuidados e a qualidade dos mesmos. O objetivo deste estudo foi identificar as necessidades de assistência de enfermagem, em doentes com necessidades paliativas no domicílio assistidos pelos serviços de saúde de um Agrupamento de Centros de Saúde, de uma Unidade Local de Saúde, do norte de Portugal. MATERIAL E MÉTODOS: Realizámos um estudo, quantitativo, descritivo, transversal e observacional desenvolvido no contexto dos cuidados de saúde primários, cujos participantes foram doentes inscritos no Agrupamento de Centros de Saúde de uma Unidade Local de Saúde. Foi definida uma amostragem aleatória estratificada, por unidade saúde. A recolha de dados foi realizada no período de 29 de abril a 5 de outubro de 2015. Para tal, foi desenvolvido um instrumento, com base num conjunto de outros instrumentos, que resultou da pesquisa efetuada e para dar resposta aos objetivos do estudo, de acordo com a revisão da literatura. Os dados foram recolhidos após contacto pessoal no domicílio de cada doente ou num local definido pelo mesmo, para aplicação do instrumento de recolha de dados, num único momento. A seleção da amostra passou por várias fases. A amostra final resultou da pergunta surpresa aos clínicos, se ficariam surpresos se os pacientes selecionados aleatoriamente, morressem no período de um ano. RESULTADOS: Dos 234 doentes selecionados, resultaram num total de 121 doentes que participaram no estudo. A prevalência de doentes com necessidades paliativas correspondeu a 9.5% (prognóstico de vida inferior a um ano). São maioritariamente mulheres, com mais de 70 anos de idade, inativas, com baixa escolaridade e residentes em alojamento próprio (moradias) com condições habitacionais adequadas para as suas limitações. Quanto às necessidades dos doentes destacamos a dimensão física, associado a sintomas de dor e astenia; preocupações adicionais como sentirem-se um fardo para a família, não serem independentes e úteis, ausência de contacto com os amigos; a nível emocional sentem-se tristes, nervosos e preocupados quanto à evolução da sua doença; na dimensão espiritual a falta de sentido e propósito para viverem e não sentirem paz de espírito; na dimensão social e familiar, possuírem uma má relação com os amigos, pouca proximidade do parceiro ou cuidador e ausência de apoio emocional por parte da família; na funcionalidade, sentem-se pouco realizados profissionalmente, insatisfeitos com a sua qualidade de vida e não gostam do que fazem no seu quotidiano. Em termos de recursos os doentes raramente recorrem ao serviço privado e no serviço público, recorrem essencialmente às consultas de enfermagem no centro de saúde e domiciliárias, a consultas médicas nos hospitais e quanto a exames de diagnóstico, às análises e radiografias e tratamentos, para realização de pensos a feridas. DISCUSSÃO: A taxa de prevalência de doentes com necessidades paliativas é consideravelmente superior ao estimado o que poderá estar associada às idades dos sujeitos e à estimativa prognóstica dos clínicos que os referenciaram. Em relação ao perfil sociodemográfico, vai de encontro ao conhecimento encontrado, sendo na maioria mulheres, idosas, aposentadas e a viverem apenas com o cônjuge. Relativamente às necessidades estão adequadas às necessidades identificadas em outros estudos internacionais, na assistência a doentes com necessidades de cuidados paliativos, no domicílio. A dimensão física é uma necessidade muito reportada pelos doentes, pela presença de sintomas não controlados, seguida das preocupações como ser um peso para a família, seguindo-se a dimensão emocional, espiritual, sociofamiliar e por fim a funcionalidade. Os recursos mais utilizados pelos doentes corroboram com a evidência encontrada, sendo o serviço público o mais solicitado e dentro deste, a nível dos cuidados de saúde primários, as consultas de enfermagem, são as mais requeridas pelos doentes que permanecem e pretendem serem cuidados no domicílio. CONCLUSÃO: Os resultados deste estudo possibilitam identificar as necessidades dos doentes portadores de doenças crónicas, avançadas, progressivas e limitadoras da vida que pretendem ser cuidados e morrer no seu domicílio, bem como, determinar os recursos utilizados por estes. O estudo constitui-se como um valioso recurso para a valorização do papel da enfermagem na gestão estratégica do planeamento de cuidados e promoção de qualidade de vida, assim como permite identificar um conjunto de necessidades de intervenção que poderão e deveriam ser desenvolvidas dentro do Sistema Nacional de Saúde em termos de requisitos formativos, diretrizes de enfermagem, custo-efetividade e iniciativas de investigação.
| Período | 4 dez. 2017 |
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| Grau de reconhecimento | Doutoramento |
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