Um Banco Central Europeu à moda de Chicago

Imprensa/meios de comunicação

O presente sistema financeiro mundial é incompatível com a democracia. O facto foi revelado nos países da OCDE com a crise financeira global de 2008. Apesar de alguns progressos pós 2008, o referido sistema dá ainda sinais de estar mais orientado para extrair rendas à sociedade, do que para financiar a economia real e contribuir para o bem comum.

O quadro económico teórico que o regulador do sistema financeiro da área do euro — o Banco Central Europeu (BCE) — adota é o do monetarismo e da corrente nova clássica da Escola de Chicago de Milton Friedman e Robert Lucas Jr.. Escola que esteve na base das prescrições do Consenso de Washington para os países em desenvolvimento. Como projeto político-económico que é, o liberalismo que a referida Escola

de Chicago preconiza é, de facto, iliberal. Na política, apoiou ditadores como Pinochet. Na economia, prefere mais mercado e menos Estado, mesmo que isso signifique estruturas de mercado que não são competitivas ou de mercado livre. O facto de as suas prescrições resultarem numa crescente desigualdade de rendimentos em todos os países do mundo, também nos países da OCDE, no estrangulamento das classes médias e no fim das democracias pouco lhe parece importar.

A Escola de Chicago de Friedman e Lucas domina a formação nas escolas de economia desde a crise petrolífera dos anos 1970 (que eclode no contexto do conflito entre Israel e o mundo Árabe) até ao presente, apesar do debate científico que existe na academia. É esta Escola que está na base de ideias como a independência de atuação dos bancos centrais do poder político, o foco exclusivo da política monetária na estabilidade de preços e o arredar da política fiscal da estabilização do ciclo económico.

O BCE é mais alinhado com o pensamento da Escola de Chicago do que é a Reserva Federal Americana (Fed). O BCE tem como única missão a estabilidade de preços, enquanto o Fed tem como missões o máximo emprego, a estabilidade de preços e taxas de juro moderadas no longo prazo. Acresce que a zona euro não tem a mobilidade de trabalho e a união de transferências que têm os Estados Unidos, para lidar com choque assimétricos.

Na presente conjuntura da União Europeia, a inflação constitui um choque assimétrico. Os diferentes países da área do euro estão com níveis de inflação variados e a política monetária é uma só. Por exemplo, a inflação alemã é maior que a portuguesa. O BCE fala num excesso de liquidez, sem localizar onde o mesmo se encontra e porque está a causar inflação. Todavia, o BCE sabe que são fatores do lado da oferta, associados à covid-19 e à guerra na Ucrânia, aqueles que mais justificam a inflação (como as subidas dos preços da energia, dos alimentos e das matérias primas, associadas, em parte, a poder fazedor de preço dos setores referidos e a especulação bolsista, por exemplo, nos mercados de futuros dos cereais).

Mas venha ela de onde vier, a Escola de Chicago diz para lidar com a inflação com a política monetária, subindo as taxas de juro de referência, matando a procura, provocando uma recessão. Acontece que se tivesse havido atuação atempada sobre a oferta, com a política fiscal, o problema da inflação não teria ganho a dimensão que ganhou. Mas a Escola de Chicago proíbe o uso da política fiscal na estabilização do ciclo económico. Quanto à guerra e aos choques assimétricos, nos discursos da senhora Lagarde é como se não existissem.

Inflation and European Central Bank Monetary policy

Período2 out. 2023

Contribuições de meios de comunicação

1

Contribuições de meios de comunicação