Ambientes decorativos românticos em casas nobres do Norte de Portugal
: expressões oitocentistas e sua permanência até ao século XX

  • Helena Cristina Afonso de Azevedo Osório (Aluno)

Tese do aluno

Resumo

Os ambientes decorativos onde todas as artes se harmonizam, integram-se num quase esquecimento. Alguns ambientes do Romantismo por nós estudados chegaram intactos aos dias de hoje. Infelizmente, outros foram vítimas de partilhas entre herdeiros e da insustentável manutenção das grandes casas. Frisamos bem a reforma inevitável nos ambientes do século XIX porque a mudança de hábitos tornou imprescindíveis novos compartimentos temáticos e objectos multifacetados para os decorar.
O respeito pelos ambientes românticos não foi o esperado, até porque a fugaz evolução de gosto, aliada às contingências da sociedade de consumo, arrasou a sua autenticidade. O facto de serem revivalistas pôs em causa a antiguidade. Vamos procurar entendê-lo através dos ambientes românticos apresentados, pois terá chegado a altura de melhor olhar este «estilo novo» ainda considerado de gosto duvidoso e cuja inspiração proveio dos ambientes régios. No Norte de Portugal, não faltam casas com ambientes característicos deste período. Pena que não se dê o valor da história a um Romantismo que se mantém vivo.
As artes oitocentistas vão buscar influências a todas as épocas, recriando o passado mais remoto, com o saber artístico, sócio-cultural e já industrializado de então. É esta aprendizagem que nos interessa focar, na medida em que mudou o rumo do estar, viver e sentir a partir de um recuo feito até à Idade Média. Repensando a existência, retirando e acumulando saberes anteriores, o século XIX evoluiu como o resumo das artes e ciências com interpretação própria. Compreendemo-lo não apenas no contexto de ser a grande era das mudanças e invenções mas, quase isolado, à mercê dos olhares e especiais sentires de cada indivíduo inserido numa dada família e camada social.
A região pode fazer a diferença e não por acaso nos debruçamos sobre ambientes de casas nobres do Norte de Portugal. Parece-nos óbvio que a região acima do rio Douro, historicamente mais fechada e isolada na sua vida privada – sem esquecermos toda a zona duriense e Beira Alta –, tem melhor conservado valores e tradições ancestrais no seio das suas famílias nobres.
Pela velocidade das modas, circulação de bens e famílias, adesão a estrangeiros e estrangeirismos, centralização do poder, Lisboa acabou por ser penalizada no que respeita a ambientes oitocentistas intactos. Resta-nos como referência a decoração do Palácio Nacional da Ajuda, provavelmente única no género pois até a decoração do Palácio das Tulherias foi destruída pela comuna de Paris em 1871. Sem esquecer o Palácio da Pena, considerado em 2007 uma das maravilhas de Portugal, o que atesta a popularidade actual destes ambientes.
Em casas civis, os ambientes continuam abertos ao estudo não se distanciando do comportamento, gosto e viver de uma sociedade sensível ao mais variado tipo de manifestações artísticas. As casas apresentadas distinguem-se entre rurais e urbanas, sendo mistas em alguns casos, na medida em que confirmamos que «não há uma família urbana como não há uma família rural». As casas nobres de Guimarães têm algum destaque nesta nossa dissertação pois, inicialmente, pensamos debruçar-nos sobre ambientes vimaranenses em exclusivo. A abundância, originalidade e riqueza histórico-artística de exemplos a Norte do rio Douro fizeram alterar o nosso rumo, que se estendeu a outras localidades.
A nossa dissertação serve de homenagem ao movimento romântico e de elogio àqueles que respeitam a sua memória, continuando a amar os ambientes destas casas, erigidas ou apenas intervencionadas em Oitocentos, que encontramos descritas nos romances e opiniões de escritores notáveis como António Augusto Teixeira de Vasconcellos, Camilo Castello Branco, Eça de Queiroz. São eles que perpetuam os modos, gentes, vivências, preconceitos (e conceitos), aromas de tempos onde o passado nunca ficou perdido.
Partindo do geral, e de uma caracterização abrangente, destacamos seis dos exemplos que nos pareceram relevantes em termos de ambientes decorativos românticos em casas nobres susceptíveis de exercerem uma influência relevante na época. Num plano mais específico e estrito, estudamos ambientes de outras casas, dispersas pelo Norte português, aos quais fazemos referência.
Acresce ao interesse destes espólios, característicos do acervo de famílias de nobresa fidalga e burguesa (alguns dos quais já desmantelados), a descrição de bens – o que nos transporta para a realidade das grandes casas da Nobreza da Corte, fazendo apelo para uma nobreza em ascensão desde a segunda metade do século XVIII. Após a pesquisa de casas nobres, destacamos tanto ambientes preservados como recentemente desmantelados com partilhas. Consideramos as casas de Villar d` Allen e Visconde da Gândara (no Porto), Carmo, S. Cipriano e Sezim (em Guimarães) e Boavista (em Ponte da Barca), como exemplos a relevar.
Villar d` Allen, apesar de ter sido remodelada inicialmente por João Allen, foi seu filho, Alfredo Allen, 1.º Visconde de Villar d’ Allen, que a transformou no museu vivo de curiosidades ligadas à família e de naturalia, que se mantém. De todas as estudadas, Villar d’ Allen é, porventura, uma das mais românticas na medida em que conserva todas as memórias e intervenções. A casa neoclássica erigida, no Porto Oriental, pelo 1.º Visconde da Gândara apresentava já aquecimento central por meio de caldeiras num piso subterrâneo. A Casa do Carmo, ligada à família dos condes de Margaride, em Guimarães, e que recebeu os últimos reis de Portugal, encontra-se despida do seu recheio, que dispersou pela família. (Infelizmente, sofreu obras recentes que desvirtuaram os seus interiores.)
No mesmo concelho, Nicola Bigaglia (1841-1908) foi chamado a intervir em São Cipriano depois de projectar a casa que é hoje conhecida por Museu da Quinta de Santiago, em Leça da Palmeira. Ao medievalismo primitivo acrescentou estéticas decorativas e arquitectónicas já enraizadas num Romantismo maduro que influenciou as primeiras décadas do século XX. Comparamo-la à Quinta de Pindela, cuja casa sofreu um último restauro e alargamento em 1885, operados pelo 2.º Visconde de Pindella, amigo pessoal de João Santiago (senhor de S. Cipriano) e pai de D. Júlia do Carmo, casada com um filho do 1.º Conde de Margaride que remodelou a casa para receber as Majestades. Também em Guimarães, distinguimos a possível contribuição do gosto de Auguste Roquemont (1804-1852) no papel de parede dos salões da Casa de Sezim. Este artista passou grandes estadas na referida localidade, deixando a sua marca por várias habitações que visitava como amigo e filho bastardo de um príncipe alemão.
Já os ambientes da Casa da Boavista, em Ponte da Barca, foram concebidos em finais do século XIX por Bento Malheiro Pereira Pita de Vasconcelos, 4.º Visconde da Carreira. Apresentam gosto inglês, aparentado com Villar d’ Allen, sendo uma sua característica a farta luz proveniente das amplas aberturas que permitem o convívio com a natureza. A inspiração proveio da Casa da Carreira, dos Távora de Viana do Castelo, actualmente sede da Câmara Municipal. As obras oitocentistas foram realizadas em simultâneo, tendo os proprietários recorrido aos mesmos artífices.
Nesta nossa dissertação importa-nos focar, como um todo, as artes decorativas no domínio privado que circulavam dos interiores para os exteriores com alguns elementos que permaneciam de tempos passados em viagem até à Idade Média. Foram elas produzidas em Portugal do século XIX e, já antes na Europa, pois a realidade nacional é sempre um reflexo tardio das tendências europeias. Se bem que, nesta época, muitos casos havia em que a moda ditada em Paris era logo seguida em Portugal.
O expor bem, no sentido estético e na vontade de reter o olhar, não era significativo. O expor muito passou a ser um ideal – como acontece em Villar d` Allen, onde se voltou a constituir um pequeno museu de peças íntimas e memórias vivas, em homenagem a João Allen. Nos jardins, encontramos casas de fresco que se enquadram na arquitectura paisagística de formas ora geométricas ora pretensamente espontâneas. Salientamos os jardins labirínticos setecentistas do Paço de S. Cipriano, adaptados ao gosto romântico. A sua Casa de Manteiga é mesmo de arquitectura de raiz renascentista. Foi transportada para junto do tanque setecentista, com aranhões em forma de leão, em inícios do século XX. Nos próprios arbustos ou espécies arbóreas, talham-se esconderijos semelhantes a grutas onde se serviam bebidas exóticas como chá, café e chocolate. Os jardins e mata de Villar d` Allen, formados a partir de várias quintas, estão mais relacionados com o espírito romântico com percursos sinuosos, quase selvagens, pontuados por elementos arquitectónicos. Os jardins de Sezim ficam mais próximos deste ideal inglês onde as instalações da natureza, na natureza, beneficiavam de maior liberdade. De entre as espécies exóticas ressalvamos as cameleiras ou japoneiras trazidas para Portugal desde os Descobrimentos (primeiro da China, depois do Japão) que resultaram em espécies com nomes portugueses, como em Villar d’ Allen.
Em termos dos arquivos existentes nas casas abordadas, deparamos com uma situação lacunosa. Não podemos afirmar que a documentação escasseie, pois a maior parte das casas estudadas tiveram a fortuna de se manterem no seio das mesmas famílias e de serem estimadas. No século XIX e inícios do século XX, havia uma real preocupação em acumular memórias e documentos (cartas, postais, recibos, cadernos de contas) e, destes arquivos desorganizados, dispersaram documentos fundamentais.
Concluímos que tudo se interliga. Os artistas e executantes circulavam, apropriando-se de exemplos públicos e transpondo-os nos particulares. Os donos das casas mantinham relações com troca de saberes. Infelizmente, a maior parte dos estudos realizados e que importa concluir não cabe no tempo e espaço da presente dissertação, pelo que nos limitaremos a uma imagem de gosto (ou gostos) e ideais artísticos que sublinham a função social e cultural destes ambientes.
Data do prémio2009
Idioma originalEnglish
Instituição de premiação
  • Universidade Católica Portuguesa
SupervisorGonçalo Vasconcelos e Sousa (Supervisor)

Keywords

  • Ambientes decorativos românticos
  • Romantic decorative environments
  • Artes decorativas
  • Casas nobres
  • Expressões oitocentistas
  • História da arte
  • História da família
  • Jardins românticos
  • Memória
  • Património artístico
  • Património cultural
  • Preservação
  • Revivalismos
  • Romantismo

Designação

  • Mestrado em Artes Decorativas

Citação

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