O currículo é um artefacto social e cultural, que envolve uma fase de conceção e outra de reconstrução, esta a cargo dos professores, que em contexto, o desenvolvem de modo que os alunos, na sua diversidade de necessidades, características e interesses possam aceder a um conjunto de conhecimentos sistemáticos e desejavelmente comuns a todos. Uma teorização do currículo, atento a todos os fatores, sociais, culturais, de hegemonização de poder e de desigualdades de acesso, deve estar atenta à identidade e à diferença, que se joga nesse percurso, nesse currículo entendido como currere, que molda a pessoa do aluno ao longo do caminho. A massificação do ensino trouxe para a escola uma ampla diversidade de alunos, o que contras-tou com uma organização – que sobrevive desde a constituição da escola moderna no séc. XVIII e XIX – centralizada em torno do padrão da classe e de uma pedagogia da transmissão, que tende a tratar a todos como se fossem um e que necessariamente deu origem a uma diferenciação curricular, porém estratificadora, que é necessário substituir por uma forma diferenciada, mas inclusiva, de fazer ascender ao currículo comum uma grande diversidade de alunos. Essa diversidade cresce hoje nas nossas escolas, com a multiplicidade de grupos culturais, sociais, étnicos, raciais, religiosos e outros grupos minoritários, que merecem a atenção de uma escola que seja para todos, atenta às necessidades, características, designadamente culturais, e interesses dos alunos. A educação multicultural surge como resposta a esta diversidade. Sob este pano de fundo, o presente estudo procura saber em que medida a gestão e desenvolvimento curricular efetuada por três professores de uma escola caracterizada por uma ampla diversidade têm em conta, tanto ao nível das conceções como das práticas, as diversas necessidades e características dos alunos, e de que modo as culturas profissionais e organizacionais, bem como as suas conceções face à diferenciação e à educação multicultural influenciam tal gestão e desenvolvimento. Em suma, diante de um contexto de diversidade, a finalidade consistiu em compreender até que ponto os professores articulam ou não, ao nível micro, e que razões apresentam para tal, uma diferenciação curricular com uma educação multicultural, no intuito de tornar a aprendizagem mais eficaz para todos. Nesse sentido, desenvolvemos um estudo de tipo etnográfico, com recurso à observação de aulas de três participantes e a entrevistas semidiretivas para aprofundar conceções, para além de termos recorrido a um diário de campo e à análise documental, dados que submetemos a análise de conteúdo, com construção de categorias de análise auxiliada por software especializado. A análise e discussão dos dados permitiu-nos compreender que os participantes, apesar de conceberem o ensino e ensinarem numa lógica homogeneizadora, exibiram potencialidades, quer ao nível de um ensino mais diferenciado, quer ao nível de uma educação multicultural, ainda que mínima, mas que, como em outras escolas, se encontra numa fase propícia a mudanças qualitativas. Verificámos, com a ajuda dos participantes, uma forte influência de uma organização do ensino estruturado sob os pressupostos de um paradigma da homogeneidade e uma cultura profissional ainda presa de uma pedagogia da transmissividade, com pouco trabalho colaborativo e pouco desenvolvimento profissional, que, no entanto, é requerido por um contexto pedagógico que exige diferenciação e educação multicultural. Constatámos que o contexto atual pode ser aproveitado como oportunidade para evoluir através de um reforço do conhecimento profissional.
| Data de atribuição | 4 set. 2014 |
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| Idioma original | Portuguese |
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| Instituição de premiação | - Universidade Católica Portuguesa
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| Supervisor | Maria do Céu Roldão (Supervisor) |
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