As doenças crónicas não transmissíveis (DNTs) são responsáveis por 41 milhões de mortes anualmente e podem estar associadas a hábitos alimentares não saudáveis, razão pela qual levou a que várias organizações de nutrição e saúde recomendassem o consumo regular de frutas e vegetais. Os carotenoides e os seus metabolitos estão associados a benefícios para a saúde e são os fitoquímicos lipossolúveis mais prevalentes na dieta humana, encontrados em quantidades da ordem do micromolar no sangue e suscetíveis a múltiplas reações de oxidação e isomerização. Na natureza, os carotenoides têm uma biodisponibilidade reduzida, o que leva à sua acumulação no colon, que é colonizado por diversos microrganismos importantes para a digestão e saúde intestinal. A biodisponibilidade destes compostos é influenciada por vários fatores, com destaque para a importância da microbiota intestinal na sua absorção e metabolismo. A dieta desempenha um papel fundamental na regulação da microbiota, podendo afetar a eficácia de ação dos carotenoides. No entanto, a interação específica entre carotenoides e microbiota intestinal ainda não está bem documentada e carece de evidências claras. Para entender melhor a possível interação entre os carotenoides e a microbiota intestinal, três carotenoides (beta ()-caroteno, luteína e licopeno), uma mistura desses pigmentos e a alga Osmundea pinnatifida (como fonte de carotenoides) foram submetidos a uma simulação in vitro da digestão gastrointestinal. Após a caracterização do impacto desse processo em cada grupo testado, os carotenoides digeridos foram avaliados em amostras frescas de fezes humanas de dadores voluntários por fermentação para aferir o efeito destes sobre a dinâmica metabólica e populacional da microbiota intestinal. A digestão dos grupos testados originou diferentes tipos de carotenoides ao longo do trato gastrointestinal (TGI), sendo o -caroteno a única condição em que foi identificada a absorção de um caroteno (2,49%). Nenhum carotenoide foi detetado na O. pinnatifida, o que sugere que numa matriz complexa como algas, os carotenoides podem estar comprometidos na sua bioacessibilidade sem pré tratamento de lise da alga. A composição da microbiota intestinal foi analisada, e foi demonstrado que Bacteroidota, Bacillota, Pseudomonadota e Actinomycetota são os principais filos presentes, e que os carotenoides estimularam o aumento da abundância relativa (AR) da família Lachnospiraceae e a diminuição da AR das bactérias pertencentes aos géneros Lactobacillus, Enterococcus, Streptococcus e Bifidobacterium, o que é consistente com estudos anteriores. Em geral, também a produção de ácidos gordos de cadeia curta (AGCC) foi estimulada na presença dos carotenoides, o que mais uma vez corrobora resultados obtidos em estudos anteriores e apoia o papel positivo destes pigmentos na saúde intestinal. Em termos de propriedades funcionais, as soluções testadas apresentaram atividades antioxidante e antidiabética consideráveis, sendo os valores mais altos obtidos para a luteína na fração absorvida e para a mistura de carotenoides na fração retida no intestino. Por fim, foi demonstrado que as amostras de carotenoides apresentaram efeitos anti-mutagénicos, independentemente da concentração, mas não apresentaram citotoxicidade mesmo quando aplicadas nas concentrações mais altas.
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- Mestrado em Microbiologia Aplicada
Interaction between carotenoids and the intestinal microbiota and its impact on functinal properties
Rocha, M. H. D. A. R. (Aluno). 10 out. 2023
Tese do aluno: Dissertação de mestrado