La inevitibilidad del discurso ético-político sexual a partir de la obra de Foucault

  • Cristiano Fernando Amorim Cerqueira (Aluno)

Tese do aluno

Resumo

Através do projeto genealógico que formam os três últimos volumes des plaisirs, Histoire de la sexualité III: Le souci de soi e Histoire de la sexualité IV: Les aveux de la chair), podemos ver como inevitavelmentes e formaram três discursos ético-políticos. A democracia ateniense, cujo governo estava formado pela integralidade dos homens-cidadãos, inflenciou o desenvolvimento de uma ética marcada pelo governar-se para governar aos demais. Nesta ética fundamentou-se na ordem natural tanto a superioridade do homem e a submissão da mulher perante este como o ato sexual em si mesmo. Este último não foi reconhecido como um mal mas atribuíram-lhe um mal intrínseco: a tendência ao excesso. A desmesura, a kraisa, interligada à passividade formavam aquilo a evitar. O uso dos aphrodisia devia guiar-se pela necessidade e adequar-se ao kairos e à temperança, sophrosune e enkrateia. A medicina considerou essencial a economia do sémen, ao que associaram propriedades vitais, e a procriação, que permitiriam ao indivíduo um certo tipo de imortalidade. Com vários paralelismos com a ética, regulou a atividade sexual dos indivíduos através de um regime. Verificaram-se dois tipos de relação que preocuparam os pensadores. Por um lado, o matrimónio; o caso particular do adultério testemunha a dissimetria desta relação, onde a mulher era uma ajudante,uma colaboradora na gestão do oikos. Esta gestão por parte do marido era importante porque oikos, indivíduo e estado pertenciam ao mesmo modelo de gestão. Por outro lado estava a relação de um homem-cidadão e um rapaz livre, um erastes e eromenos. Uma relação legal e aceitada que preocupava os pensadores pelo seu caráter formador, pela honra e pela dificuldade de aceitar o rapaz como objeto de prazer. A tradição socrático-platónica via neste tipo de relação a relação mais próxima da verdade. Era a relação onde se desenvolvia a philia, a relação predileta de Eros, mas não havia lugar para Afrodita.Na Grécia antiga, a filosofia formava-se pela metafísica, a epistemologia e a ética. Por outro lado, nos dois primeiros séculos da nossa era, sob o estoicismo tardio, a ética converteu-se na filosofia,atribuindo apenas importância às questões metafísicas ou epistemológicas. Nesta ética, o ponto de partida já não era o governar-se para governar os demais, era a própria debilidade intrínseca ao ser humano, e caracterizou-se por regular o comportamento segundo aquilo que estava sob o controlo do indivíduo e o que não estava. Na idade dourada da cultura de si, era elogiada a austeridade da atividade sexual por esta não estar sob o controlo do indivíduo. Nestes dois séculos, a medicina ganhou maior notoriedade e, cada vez mais, confundia-se com a filosofia. Não houve mudanças nem deslocamentos teóricos importantes em relação aos gregos, simplesmente um conhecimento mais detalhado e minucioso. Nos três séculos que durou o período helénico, a figura do homem cidadão perdeu o seu valor, o que permitiu que a figura da mulher ganhasse relevância. A mulher já podia decidir sob o seu futuro matrimónio, o que provocou um deslocamento importante neste tipo de relações: a procriação já não era o que legitimava o matrimónio, era a relação afetiva entre os cônjuges. Enquanto a relação com os rapazes,ainda sendo legal e aceitada, perdeu o seu interesse ético por três razões: por um lado a lei escantínia proibiu a passividade nos homens livres, o que provocou que os eromenos fossem escravos, sem interesse teórico,por outro lado a formação institucionalizou-se e finalmente o que fazia atraente o amor pelos rapazes agora também se encontrava no matrimónio. O matrimónio juntava Eros e Afrodita. Nos inícios do cristianismo, a natureza também foi o ponto de partida para a fundamentação e a legitimação dos comportamentos mas os pensadores cristãos interpretaram a ordem natural a partir das Escrituras. O logos que regulava a natureza, que os homens podiam entender, era também a palavra de Deus. Para se expiar dos seus pecados e poder unir-se a Deus o indivíduo devia ser batizado. Na eventualidade de cometer um pecado grave, ainda que batizado, o indivíduo ainda tinha a possibilidade de recorrer a uma segunda penitência. No século III, apareceu a vida monástica, um estilo de vida que buscava intensificar a relação do indivíduo com Deus, e onde a confissão e a direção tiveram um papel protagonista.Ao mesmo tempo, apareceu uma prática singular sem implicar nenhum tipo de continuidade: a virgindade. A virgem, que devia sê-lo tanto em corpo como em alma, através do ato e do pensamento, foi considerada pelos pensadores cristãos como equiparáveis aos anjos dada a sua incorruptibilidade: viviam no mundo terreno, uma vida do além, o que lhe concedia o status de esposa de Deus. Ao mesmo tempo que a vida monástica ganhava adeptos, o Império romano reconheceu e oficializou a Igreja. Esta relação provocou uma valorização da vida corrente, e do que se separava o homem corrente do monge: o matrimónio. A partir desse novo interesse pelo matrimónio, a hermenêutica agostiniana reconheceu que o sexo, ainda que não fosse um mal, trazia intrinsecamente consigo um mal: a líbido, tanto consequência da queda, como aquilo que transmitia, de pais a filhos, o pecado original. Entre estes discursos ético-políticos do sexual houve uma certa continuidade mas também houve deslocamentos importantes devido à interpretação de dois factos interligados: a presença de dois sexos e o ato sexual.
Data do prémio22 jul. 2021
Idioma originalSpanish
Instituição de premiação
  • Universidade Católica Portuguesa
SupervisorJosé Miguel Stadler Dias Costa (Supervisor)

Designação

  • Mestrado em Filosofia

Citação

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