Le pardon entre memoire et esperance
: pour une lecture theologique de Paul Ricoeur

  • Susana Vilas Boas (Aluno)

Tese do aluno

Resumo

A partir do pensamento de Paul Ricoeur sobre o história-tempo e a memóriaesquecimento, procura-se compreender o sentido da esperança, não apenas numa perspetivafilosófica, mas também – e sobretudo – numa perspetiva teológica cristã. Procura-se aquicompreender de que modo é possível manter uma continuidade histórica, salvaguardar amemória (por mais traumática que ela seja) e olhar o futuro com esperança (uma esperançacapaz de transfigurar o modo de ver o futuro, mas também com poder de iluminar o presente epermitir uma releitura salvífica do passado). De facto, quando a história herdada e aquela quese vive no passado é cheia de sofrimento, torna-se difícil vislumbrar a esperança no futuro e,consequentemente, viver o tempo presente sem que este seja sentido como angústia incessante.11A proposta de Paul Ricoeur parece apontar alguns caminhos. Por um lado, a história eo tempo são pensados de um ponto de vista marcadamente ‘profissional/académico’,procurando-se que a reflexão filosófica se alie à história narrada pelos historiados e o tempoassociado à cronologia e à calendarização. Por outro lado, a memória e o esquecimentoprocuram ser pensados para além do sentido proposto pelas ciências (neurociência, psicologia,etc.). Contudo, no momento de se pensar o presente e o tempo futuro, Ricoeur – de um modomais implícito que explícito – propõe o perdão como possibilidade de olhar o futuro semfatalismos e sem desesperos. Na visão ricoeuriana, o perdão alia-se à tensão que subsiste sempreentre memória e esquecimento e, não sendo o perdão esquecimento (nada tem a ver com oconceito de amnistia), este – sendo entre humanos – transfigura a realidade humana e torna-secapaz de curar a história. Porém, a perspetiva ricoeuriana de perdão é sempre associada àlimitação própria da contingência humana, o que parece fazer vislumbrar uma certaimpossibilidade de manter a esperança no sentido mais absoluto do termo. Se é certo que a seupensamento sobre o conceito de perdão parece travar possiveis espirais de violência, devingança e de desespero, este, porque não consegue abarcar a totalidade do ser humano pareceficar àquem daquilo que o ser humano poderia ansiar. Assim, Ricoeur procura umaaproximação à teologia para compreender o conceito de perdão e, sobretudo, o conceito deesperança. Esta é uma aproximação que vai oscilando com algumas tensões que Ricoeur expõe,mas que nem sempre consegue resolver, sobretudo quando procura que o perdão e a esperançasejam realidades concretas na vida do ser humano, evitando toda a ambiguidade oupossibilidade de pensar estes conceitos à luz de qualquer abstração utópica (como às vezes lheparece ser o caso das perspetivas teológicas).Num caminho similar ao de Ricoeur, a leitura teológica que neste estudo é feita,desenvolve-se através da articulação da filosofia ricoeuriana com as perspetivas de outrosfilósofos, psicólogos, sociólogos e teólogos. Apartir desta articulação, e sob a marca teologicoescatológica, torna-se possível abrir novos caminhos e defender a tese de que, só o perdão,12entendido numa perspetiva teológica-cristã, poderá ser elo de ligação e caminho depossibilidade de verdadeira esperança. Neste estudo, procura-se, portanto, compreender osconceitos de história-tempo e de memória-esquecimento para além das perspetivasricoeurianas, podendo assim, compreender a amplitude e implicações do perdão para umacontinuidade histórica e para uma esperança para além da contingência e das circunstânciasterrestres. Na perspetiva teológica, a esperança e a história apresentam-se ‘de mãos dadas’ soba marca da Promessa e da Escatologia, onde o perdão é pensado de modo pessoal (entre sereshumanos), sem negar – mas, antes, incluir, a presença e ação de Deus. Só com Deus como pontode partida e ponto de chegada do perdão é possível que este seja entendido como ‘sempreprimeiro’ e, nesse sentido, incondicional (para além do próprio reconhecimento de culpa e/ouarrependimento). Além disso, só deste modo é possível compreender a responsabilidadesalvífica inerente à ação de perdoar : vítima e opressor, pelo acontecimento do perdão, ficamligadas a um mesmo caminho salvífico – um será sempre co-responsável pela salvação do outro.Neste caso, o perdão apresenta-se, não apenas como dom oferecido, mas comocondição de possibilidade para a salvação humana e, consequentemente, por uma esperança quenão existe apenas no post mortem (como, por vezes, parece defender Ricoeur), mas numacontinuidade entre vida terrestre e celeste. Aqui, o ser humano é entendido para além da suabiologia e a vida (o seu sentido último) para além dos fatalismos das circunstâncias e das suaslimitações (nomeadamente a limitação da morte), o que leva a compreender a vida num sentido‘não circunscrito’ pela morte. Ao contrário, a morte torna-se momento natural da existênciahumana, que em nada deve assustar ou atemorizar ; antes, é abertura de novos horizontes – ohorizonte escatológico que tem início na vida terrena, mas que não termina com o seu fim.Deste ponto de vista, nem os acontecimentos geradores de sofrimento, nem a naturezahumana que tem sempre presente a inevitabilidade da morte (seja pela antevisão da mortepessoal, seja pela confrontação com a morte de outros), são obstáculos a uma vida marcada pelaesperança. Estes são elementos constituintes da vida e que, de algum modo, fazem parte da13consumação da esperança e da Promessa divina. O sofrimento e a morte não são, por isso,entendidos como rutura ou interrupção da vida, mas como continuidade de algo que é maior doque o simples desejo/expectativa humana (espoir) e, consequentemente, como algo que integraa realidade e sentido da existência humana.Apesar da esperança poder ser ameaçada por outros elementos que fazem parte darealidade humana, como a doença e a morte, este estudo procura, através da filosofia ricoeurianae de perpetivas teológicas sobre a temática, compreender de que modo a esperança pode servivida sem fatalismos de maneira a que seja ela a imperar e alimentar as relações interpessoaise a identidade humana, impedindo que a vida seja pautada pelo vazio existencial e/ou porqualquer tipo de resignação onde a pessoa (o sujeito em si e aqueles que o circundam) percam‘valor’. Neste sentido, ao compreender a esperança sempre sob a marca escatológica, e o perdãosob a marca do humano-divino, torna-se possível ir para além da compreensão ricoeuriana sobreestes conceitos e ultrapassar as dificuldades trazidas pela tensão intransponível entre memóriae esquecimento. De facto, porque o perdão é total e absoluto, torna-se capaz de incidir nahistória e curar a história, não apenas das vítimas e dos seus opressores, mas de toda acomunidade humana (sobretudo quando falamos de crimes de larga escala em que, muitasvezes, as vítimas já morreram e, por isso, são incapazes de oferecer o perdão). Trata-se de umperdão libertador que nada perde da sua incondicionalidade ao associar-se ao conceito de reconciliação – lá onde se extinguiu a possibilidade de relação/encontro entre vítimas e opressores, só Deus pode perdoar ; mas desse perdão deriva a possibilidade (a exigência) de um caminho de reconciliação entre os herdeiros dos acontecimentos criminosos. De facto, e ao contrário do defendido por Ricoeur, a reconciliação surge como consequência imediata do perdão (cujo primado acontece em Deus). Neste caso, o esquecimento nunca se torna apelativonem a memória obstaculizadora do perdão. Do mesmo modo, a esperança ganha, pelo perdão,nova amplitude : ela não visa apenas o futuro, mas tem incidência também no presente e nopassado, na medida em que, por ela – e nela – é possível reler os acontecimentos segundo umaperspetiva escatológica, indo para além do fatalismo da factualidade.
Data do prémio21 jan. 2022
Idioma originalFrench
Instituição de premiação
  • Universidade Católica Portuguesa
SupervisorJoão Manuel Duque (Supervisor) & Johan Verstraeten (Co-Orientador)

Designação

  • Doutoramento em Teologia

Citação

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