Relação entre a música e a matemática
: desempenho de alunos do 9º ano e a perceção da comunidade educativa sobre neuromitos no ensino formal da música

  • Susana Azevedo (Aluno)

Tese do aluno

Resumo

Tendo por base uma perspetiva interdisciplinar e de ligação entre as Neurociências Cognitivas e as Ciências da Educação, este estudo visa contribuir para a compreensão da relação entre o ensino formal de música e possíveis benefícios cognitivos, nomeadamente, no que diz respeito à proficiência no desempenho na matemática em estudantes de 9º ano. Com o presente trabalho foram desenvolvidos quatro estudos que, por um lado, pretenderam dar resposta à efetividade dos efeitos diretos e indiretos resultantes do estudo formal de música no desempenho da matemática e, por outro, identificar os equívocos presentes nas comunidades educativas do ensino especializado quanto ao estudo do cérebro relacionado com a música. O primeiro estudo a ser conduzido foi o de revisão sistemática da literatura com o objetivo de compilar e analisar os estudos publicados entre 2007 e 2018 acerca da influência que o estudo da música pode exercer no desempenhado cognitivo e académico. Os nossos resultados indicam que os estudos realizados até ao presente são ainda insuficientes para demonstrar a existência clara de uma relação entre o ensino musical e as competências matemáticas, nomeadamente no que se refere aos benefícios da primeira sobre a segunda. Reforça-se a necessidade de encontrar métodos de investigação mais robustos para que a obtenção de resultados consistentes e que permitam ser incorporados de forma confiável neste domínio científico. No segundo estudo, procurou-se analisar a perceção sobre os neuromitos e os factos científicos relacionados especificamente com estudo do cérebro e o ensino de música numa comunidade educativa inserida EAEM. Para o efeito, a amostra foi coletada junto de professores (n=42) com idades compreendidas entre os 24 e os 65 anos (M=41.21, DP=9.692), pais (n=109) entre os 36 e os 54 anos (M=45.40, DP=4.626) e alunos do 3º ciclo e ensino secundário (n=89) entre os 12 e os 18 anos (M=14.24, DP= 1.877). Os resultados confirmaram uma elevada prevalência de neuromitos relacionados com o ensino de música em toda a comunidade educativa ligada ao EAEM, sendo consistentes com padrões observados em estudos de outros países. As conclusões sugerem existir uma enorme lacuna no conhecimento que envolve o estudo do cérebro e da sua possível transferência à prática de sala de aula e a necessidade da interdisciplinaridade na formação dos profissionais de educação, por forma a travar a circulação destas distorções científicas em contexto escolar. O terceiro estudo incidiu na análise de resultados obtidos na Prova Final de Matemática (92) de 9º ano (IAVE, 2018) pelos estudantes de música comparativamente aos dos seus pares, que nunca haviamfrequentado o ensino formal de música, de modo a verificar o desempenho no exame nacional de Matemática. A amostra foi composta por 166 alunos, com idades compreendidas entre 14 e 15 anos, em que 74 são do 9º ano do Ensino Regular (M = 14.65; DP = 0.481) e 90 frequentam o mesmo ano de escolaridade em escolas de EAEM (M = 14.53; DP = 0.502). Os resultados mostraram que os estudantes de música registaram uma melhor pontuação na prova final de matemática em todos os seus domínios, i.e., Números e Operações (NO), Geometria e Medição (GM), Funções, Sequências e Sucessões (FSS), Álgebra (ALG) e Organização e Tratamento de Dados (OTD), em comparação com os seus pares sem currículo especializado de música. Por fim, o quarto estudo procurou estabelecer uma relação dos resultados obtidos na Prova Final de Matemática (92) de 9º ano (IAVE, 2018) dos alunos do EAEM controlando as seguintes variáveis: i) número de anos de aprendizagem de música; ii) tipo de instrumento em aprendizagem (Teclas, Percussão, Sopro ou Cordas); iii) tempo médio de estudo semanal de instrumento; iv) classificações finais de 3º período; v) frequência de atividades extracurriculares (ex: dança, desporto, teatro); vi) apoio ou explicação de matemática; e vii) número de horas semanal de apoio ou explicação de matemática. Aqui o estudo incidiu apenas em alunos do EAEM (n=92), entre os 14 e os 15 anos (M=14.53, DP=0.502). De todas as variáveis analisadas os resultados revelaram que apenas o apoio/explicações apresentou diferenças significativas, na medida em que os alunos que não têm apoio extra a matemática são os que atingem melhores resultados no exame final. Considerando os vários estudos no seu conjunto, conclui-se que ainda que o estudo formal de música, a longo prazo, possa contribuir para um efeito de transferência positivo nas competências matemáticas, é ainda necessária mais investigação capaz de controlar uma série de variáveis por forma a verificar com robustez uma relação de causalidade referente ao tipo de ensino sobre o desempenho académico. Percebemos também através do estudo quanto à perceção sobre os neuromitos relacionados com a música que são várias as crenças e extrapolações científicas que ainda estão presentes no contexto escolar, especialmente no que se dedica ao ensino artístico. A partir do trabalho aqui desenvolvido destaca-se ainda a importância da construção de uma ponte de ligação entre o campo científico das neurociências e o trabalho de translação deste conhecimento na prática educativa, para que haja uma melhor compreensão das questões e pressupostos práticos inerentes a esta área de estudo, tendo em consideração o benefício efetivo que a educação musical poderá obter através desta ligação interdisciplinar
Data do prémio20 jul 2021
Idioma originalPortuguese
Instituição de premiação
  • Universidade Católica Portuguesa
SupervisorJoana Rodrigues Rato (Supervisor)

Keywords

  • Formação musical
  • Desempenho académico
  • Competências matemáticas
  • Neuromitos
  • Ensino especializado de música
  • Comunidade educativa
  • Adolescentes

Designação

  • Doutoramento em Ciências da Cognição e da Linguagem

Citação

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